O perigo para o candomblé.
Luiz
L. Marins1
22/10/2009
Extrato da entrevista de Pierre Verger para Revista EXU,
Salvador-BA, Set/Out 1988,
Fundação Casa de Jorge Amado.
Nestes
tempos de Internet, de tanta informação, contra-informação e
desinformação, e para que se perpetue através dos computadores,
julguei oportuno registrar um extrato da entrevista de Pierre Verger
publicada na Revista EXU, edição de setembro/outubro de 1988,
concedida a Myrian Fraga, Conselheira da mesma, com coordenação de
Claudius Portugal, editada pela Fundação Casa de Jorge Amado, Largo
do Pelourinho, s/n, Salvador, BA.
Nesta
entrevista Verger fala de sua chegada à Bahia, de seu encantamento
pela cultura afro-baiana, de preconceito, de seu trabalho como
fotógrafo, de início como escritor, etc., mas a resposta de Verger
que fez valer toda a entrevista foi aquela que ele adverte sobre os
perigos que ameaçam o candomblé.
Vamos reproduzir na
íntegra a pergunta da entrevistadora Myrian Fraga e a resposta de
Verger, que servirá como advertência, não só para a geração
atual, como ainda para as futuras gerações, que tem buscado cada
vez mais conhecimentos nos livros. Vejamos a entrevista:
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[...]
MYRIAN
FRAGA: E o candomblé hoje. Como o senhor o vê nesses quarenta anos,
já que a Bahia foi modificada, principalmente pelo turismo?
PIERRE
VERGER: O turismo é muito perigoso. Mas
o que é perigosíssimo são as teorias dos intelectuais.
Coisas que não têm nome, que não se justificam, mas são
apresentadas com muita inteligência. São coisas muito inteligentes!
Mas, [usando um conceito] inteligente, podem se dizer coisas que são
estupidezas tremendas. Muito bem explicadas, mas são completamente
falsas. Infelizmente, há recentemente coisas publicadas, que dizem
exatamente o contrário do que são. Tem uma pessoa que escreveu que
é proibido a gente comer as comidas que fazem parte das oferendas
que se faz a um certo santo. Fez um trabalho minucioso e conseguiu a
confirmação do ponto de vista que queria mostrar, mas que é
completamente o reverso. Quando uma pessoa faz um trabalho com uma
“hipótese de trabalho”, consegue provar qualquer coisa. E isso,
porque baseou a teoria sobre a teoria de outra pessoa, da qual não
quero dar nome, que escreve de maneira inteligente, mas que escreve
coisas completamente estúpidas. É muito grave! O raciocínio é
perfeito, mas a base é falsa. Tem muita gente inteligente que é
completamente falsa. E isso é perigoso para o candomblé, porque o
conhecimento do candomblé não é conseguido pela gente do candomblé
de maneira didática. Nunca um pai de santo, digno de seu nome,
ensina as coisas. Eles demonstram como se faz, sem explicar. Se a
gente é inteligente, entende o que é.
MYRIAN FRAGA: E a
utilização do candomblé, os mitos africanos, religiosos ou não,
numa recriação literária? Como vê isto?
PIERRE VERGER: Eu
acho que é um meio de usar os mitos africanos para a gente conhecer.
Eles são de uma poesia e uma beleza muito grande. Não acho
inconveniente algum, se não fizer uma deformação de caráter. Digo
que há livros muito bonitos, Vasconcelos Maia, por exemplo. Se não
deformar o caráter do santo, por que
não.
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[É
permitida a cópia desde que cite a fonte]
1Luiz L. Autor do livro Obàtalá e a Criação do Mundo Iorubá, que traz a antiga visão do conceito da cosmologia ioruba, a ser publicado.